sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Meu Porto















RECADO AO PORTO / José Mário Branco


Nas margens
Deste rio atormentado
É que está dependurado
O nome do meu país
Mistura
Entre a fuga e a procura
Entre o medo e a loucura
Que estão na minha raiz

Meu Porto
Muito mais vivo que morto
Tu recusas o conforto
De quem está morto de vez
Por isso
Eu te mando este recado
Porque vivo atormentado
Como o rio que te fez

Daqui houve nome Portugal
Aqui está tudo bem e tudo mal
Meu Porto, és o carinho que me tenho
És a ponte donde venho
Entre o mar e o quintal

Criança
Ris e choras de seguida
Mesmo quando a tua vida
É o assunto da anedota
Sentir
É o teu modo de existir
E és capaz de mentir
Só p’ra não fazer batota

Meu Porto
Revoltado e penitente
Invicto p’ra tanta gente
Só por ti és derrotado
Nas margens
Do rio que te desflora
Há um vulcão que demora
E dorme sempre acordado

Daqui eu fui embora sem vontade
Aqui eu renasci p’rà liberdade
Meu Porto deixa-andar, nunca-fiando
Que me dás de contrabando
A mentira e a verdade

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